Paulo Franke

09 março, 2013

Anne Frank - o dia em que visitei Bergen-Belsen



Postagem de 2008


De trem pela Europa 10 - Bergen-Belsen (Alemanha)

Da Holanda, retornei a Hanover e tomei o trem para a cidade de Celes, onde caminhei por quase uma hora para encontrar o Albergue da Juventude, onde enfim me hospedei. Lá chegando - cansado, uff!!, há que ser "jovem"! - dois rapazes se encontravam no mesmo quarto. Nossa tendência ao egoísmo sussurrou ao meu ouvido: "Pena que não tens um quarto só para ti!" E como ainda não era hora de ir para a cama, comecamos a conversar. Quando falei a um deles, alemão, que eu era descendente de alemães, indicou-me a visita a um museu da emigracão alemã recentemente inaugurado, o que tratarei na próxima postagem. Foi a primeira vez que desviei da rota previamente estabelecida.
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Antes da viagem, procurei inteirar-me também do modo como iria de Celes ao campo de concentracão de Bergen-Belsen, distante talvez uns 50km. Conforme informacão pelo Google, de quem já fizera aquela viagem, estava pronto para enfrentar dificuldade para lá chegar.
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Voltando ao meu segundo companheiro de quarto, um rapaz inglês, anglicano, quando o vi debrucado à mesa do quarto e escrevendo sem parar, perguntei-lhe sobre o que escrevia. Então soube que viera a Celes para fazer um trabalho de universidade em Bergen-Belsen, e iria para lá novamente no dia seguinte. Providência de Deus!!
Que bom que não fiquei em um quarto sozinho e encontrei esse companheiro, palavra que literalmente significa "aquele que come o pão junto". (Na verdade, deveríamos lembrar sempre: "O homem é infeliz porque constrói muros em vez de pontes").
E com esse companheiro tenho em comum cumprir nos dias de hoje o que o General Dwight Eisenhower falou aos seus contemporâneos sobre o Holocausto:
"Que se tenha o máximo de documentacão - facam filmes, gravem testemunhos - porque há de vir um dia em que algum idiota se vai erguer e dizer que isto nunca aconteceu!" - General Dwight Eisenhower


De fato, após um bom café-da-manhã no dia seguinte saí com o meu companheiro (munidos os dois de sanduíches, o que era permitido fazer no albergue) rumo a Bergen-Belsen, o lugar para onde ele fora no dia anterior, e se perdera...
À entrada do campo de concentracão de Bergen-Belsen, com o meu jovem amigo inglês, com o qual tanto me identifiquei pelo amor ao povo judeu.
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À entrada do campo recebemos um livreto com explicacões para visitar o local e nele situar-se, o meu caso, pois meu amigo continuou seu trabalho de pesquisa. Acima, traduzindo o pensamento ao pé do livreto: Ninguém nasceu com uma etiqueta em volta de seu pescoco dizendo: pessoa de primeira ou segunda classe. Nós, seres humanos, temos inventado essas etiquetas. (Anita Lasker-Wallfisch) 
A planta do campo.
Inicialmente, somos encaminhados a um grande e moderno pavilhão de exposicão de objetos encontrados quando o campo foi liberado, e também de fotos, muitas fotos, tiradas por um fotógrafo que acompanhou a liberacão. A pedra de mármore que dá para o campo é um lugar para sentar-se e meditar ou orar. 
Em uma das vitrines, a roupa de um prisioneiro.
E, como não poderia deixar de ser, duas grandes vitrines são dedicadas à Anne Frank, a pessoa mais conhecida que morreu em Bergen-Belsen, juntamente com sua irmã Margot. Anne morreu quase às vésperas do campo ser liberado no final da guerra.

A foto de um prisioneiro agonizando no chamado "o mais cruel dos campos de concentracão, Bergen-Belsen". Havia 2.000 criancas no campo.


Em setembro de 1945 comecou o julgamento de Bergen-Belsen em Lueneburg. Houve 44 pessoas acusadas, 33 membros da SS e 11 "kapos". 11 receberam sentencas de morte, 19 sentencas à prisão e 14 inocentados. Mais do que 430 guardas da SS nunca foram levados a julgamento. No local do campo havia barracas para os guardas e uma villa que era a residência do comandante do campo, chamado de "a fera de Belsen", com sauna e piscina para os oficiais da SS. 
Após mais de uma hora vendo a exposicão dramática de fotos e assistindo a videos - inclusive de pessoas esqueléticas preparando sua pobre refeicão a poucos metros de pilhas de cadáveres - a próxima etapa é sair para a grande área onde foi o campo.


Ao contrário de Auschwitz, todos os pavilhões de Bergen-Belsen - cinicamente chamados de "casas de repouso" - foram queimados quando por ocasião da liberacão do campo por soldados britânicos, em 15 de abril de 1945, ocasião em que havia aproximadamente 60.000 prisioneiros no local.


A planta do campo em bronze.


O obelisco e a parede de inscricão foram erigidos entre 1947 e 1952. A cada ano uma cerimônia formal é realizada para comemorar a liberacão do campo. É organizada pelo AG Bergen-Belsen juntamente com a ativa Youth from the International Work Camp, sobreviventes e testemunhas oculares. 


Inscricões em diversas línguas, principalmente em hebraico. 
Monumento erigido no primeiro aniversário da liberacäo de Bergen-Belsen.


E abaixo, fotos que tirei das sepulturas simbólicas construídas por associacões ou mesmo por familiares dos que morreram em Bergen-Belsen.





E olhem lá, a sepultura simbólica das irmãzinhas Margot e Anne Frank! Só mais tarde percebi que diante da pedra sepulcral há um canteiro em forma de coracão.


Anne e Margot vieram para o campo em novembro de 1944,
e, contraindo tifo, morreram em marco de 1945.



Uma conhecida, que visitou Bergen-Belsen, quando na volta me encontrou perguntou se eu havia percebido que no lugar não se ouve o canto dos pássaros. Não percebi, mas pode ser que tenha razão.




"Quando eu escrevo, esqueco-me de todos os meus problemas. Minhas dores desaparecem, meu espírito é reavivado. Mas a grande pergunta é: será que algum dia escreverei algo grande, tornar-me-ei uma jornalista ou escritora?"



Na verdade, Anne e sua irmã foram enterradas em valas comuns como a acima. Há na área do campo dezenas delas, com a inscricão "Aqui jazem 1.000 corpos - Abril de 1945".
Os números diferem, 2.000, 5.000, 10.000, conforme a vala.




Quase ao chegar ao campo, o motorista alemão do ônibus-de-linha (não especial) fez questão de parar o ônibus para que eu tirasse a foto dos trilhos que levavam ao campo de concentracão...


... e também do que foi preservado da linha férrea, abaixo do viaduto.




Do ônibus tirei esta foto de um dos tantos prédios onde foram acolhidos e tratados os sobreviventes que não tinham para onde ir após a liberacão. Cerca de 13.000 não resistiram e morreram. Em 1948, quando o Estado de Israel foi fundado, o pequeno contingente de sobreviventes emigrou para Israel.




Chegado o momento de eu voltar para Celes para tomar o trem e continuar viagem, tendo encerrado minha visita - que poderia ter-se prolongado por muitos dias - meu jovem amigo veio encontrar-me perto da parada do ônibus. E ali dei-lhe um grande abraco no estilo brasileiro, de "quebrar costelas", como dizemos os gaúchos. Quanta gente bondosa e interessante encontrei nesta viagem, a qual talvez nunca mais veja nesta vida!


Como ainda faltava um tempinho para o ônibus-de-linha chegar, tirei esta sugestiva foto de minha mala e da famoso mochila com as duas bandeiras. Ali ocorreu-me o versículo no mesmo livro da Bíblia que fala dos que morreram nas mais trágicas circunstâncias e foram heróis da fé:

Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir.
- Hebreus 13:14 -

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E não deixe de ler a seguir a palavra da profecia de Ezequiel 37:1-14

(as fotos não são necessariamente de Bergen-Belsen, mas também de outros campos de extermínio nazistas)

- A visão de um vale de ossos secos -



Veio sobre mim a mão do Senhor; ele me levou pelo Espírito e me deixou no meio de um vale que estava cheio de ossos,
e me fez andar ao redor deles; eram mui numerosos na superfície do vale, e estavam sequíssimos.
Então me perguntou: Filho do homem, acaso poderão reviver esses estes ossos? Respondi: Senhor Deus, tu o sabes.



Disse-me ele: Profetiza a estes ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor Deus a estes ossos: Eis que farei entrar o espírito em vós, e vivereis.
Porei tendões sobre vós, farei crescer carne sobre vós, sobre vós estenderei pele, e porei em vós o espírito, e vivereis. e sabereis que eu sou o Senhor 
Então profetizei segundo me fora ordenado; enquanto eu profetizava houve um ruído, um barulho de ossos que batiam contra ossos e se ajuntavam, cada osso ao seu osso. Olhei e vi que havia tendões sobre eles, e cresceram as carnes e se estendeu a pele sobre eles, mas não havia neles o espírito.


Então ele me disse: Profetiza ao espírito, profetiza ó filho do homem, e dize-lhe: assim diz o Senhor Deus: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam.
Profetizei como ele me ordenara, e o espírito entrou neles e viveram e se puseram em pé, um exército sobremodo numeroso.
Então me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que dizem: Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperanca; estamos de todo exterminados. 


Portanto, profetiza, e dize-lhes: Assim diz o Senhor Deus: eis que abrirei as vossas sepulturas, e vos farei sair delas, ó povo meu, e vos trarei à terra de Israel.
Sabereis que eu sou o Senhor, quando eu vos abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, ó povo meu.
Porei em vós o meu espírito, e viverei, e vos estabelecerei na vossa própria terra.. Então sabereis que eu, o Senhor, disse isto, e o fiz, diz o Senhor.
(e os versículos 21 e22...)
Dize-lhes, pois: Assim diz o Senhor Deus: eis que eu tomarei os filhos de Israel de entre as nacões, para onde eles foram, e os congregarei de todas as partes, e os levarei para a sua própria terra.
Farei deles uma só nacão na terra, nos montes de Israel. 
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L i n k s:
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Minha visita aos Campos de Concentracão Auschwitz-Birkenau:
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http://paulofranke.blogspot.com/2006/08/campo-de-concentraco-de-auschwitz.html
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Minha visita ao Museu Anne Frank em Amsterdam:
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http://paulofranke.blogspot.com/2006/09/o-museu-anne-frank-em-amsterdam.html
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Procure no "Índice de todos os meus tópicos" outros tópicos ligados ao Holocausto, principalmente o que conta sobre os últimos dias - e morte - de Anne Frank - postado em 01 de janeiro de 2009.

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A liberacão de Bergen-Belsen (Youtube) e outros relacionados (forte!):
http://www.youtube.com/watch?v=pzdtPcNwRtM&NR=1

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4 Comments:

  • Como sempre Franke, mais uma postagem rica em detalhes e emoções, mas nessa deu pra "arrepiar" quando lemos a profecia de Ezequiel e vemos as fotos dos milhares de corpos e "ossos secos", e secos até mesmo nos corpos ainda vivos (ou meio mortos...) ! Parabéns pelo teu importante trabalho de manter vivas essas memórias tão dolorosas mas tão necessárias às novas gerações.

    By Anonymous Francisco, at terça-feira, março 19, 2013 4:04:00 AM  

  • Major, tinha lido essa postagem já faz um bom tempo. Tive que reler pois já não me lembrava com detalhes, mas... que curioso como as coisas foram preparadas tão naturalmente pra você conhecer o local sem grandes dificuldades. Como eu havia falado, tanto o Anexo, na Holanda, quanto o Campo, na Alemanha, tenho muito interesse em visitar. Achei muito instigante as palavras do General Dwight Eisenhower e também interessante o que disse sua conhecida sobre, supostamente, não haver canto dos pássaros no Campo. E quanto ao final da sua postagem com citações bíblicas... muito arrepiante! Fiquei, mais uma vez, emocionado. Nunca tinha parado pra meditar nessas palavras de Ezequiel conjecturando todo o acontecido nos anos 40. Mais uma vez, obrigado por compartilhar tudo isso, meu amigo Franke.

    By Blogger Anderson, at domingo, junho 02, 2013 6:00:00 PM  

  • Prezado Paulo, sigo amanhã par visitar Bergen-Belsen.suas portagens serviram de base para minha viagem.O ônibus de Celle para Bergen-Belsen continua funcionando? Obrigada por compartilhar conosco essa emoção.

    By Blogger Suely Quintana, at domingo, fevereiro 23, 2014 9:57:00 PM  

  • Everton Campos
    Quando assistir, em primeiro plano, um documentário na SKY sobre Anne Frank, fiquei chocado com o que ela passou mais encantado por ela ser tão jovem, inteligente e criativa.Neste documentário, o narrador diz uma frase mais ou menos assim: "Anne Frank, em sua breve vida deixou um grande legado." Então fiquei refletindo: Que legado eu deixarei na minha existência? Agora, lendo sua história e vendo as fotos, realmente você é um homem privilegiado pois conheceu este lugar que espero em vida conhece-lo também e prestar atenção se realmente os pássaros não cantam neste lugar.

    By Blogger Everton Campos, at terça-feira, março 15, 2016 5:43:00 PM  

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