Paulo Franke

27 agosto, 2014

Cine Theatro AVENIDA em Pelotas-RS - os 2 cinemas da Avenida...


Passei pelo "primeiro cinema" de minha vida, na Avenida Bento Gonçalves, na última vez em que fui a Pelotas-RS, em anos recentes. A porta, antes envernizada e com linda cortina, agora tinha mostras de envelhecimento, mas os azulejos marrons com friso verde ainda parecem conservados.


Deixem-me explicar melhor...  Meu pai comprou a casa no final dos anos 40 e lá nossa família viveu até 1954, quando então nos mudamos para a que ele mandou construir, na quadra seguinte. 
Homem de muitos passatempos, embora trabalhasse arduamente como vice-diretor do Curtume Julio Hadler S/A, seu favorito na época era o de cinegrafista. Daí mencionar o meu "primeiro cinema na Avenida", pois suas projeções de filmes do cinema mudo eram famosas, principalmente para a família, tios e amigos que traziam seus filhos, dezenas ao todo, para os nossos aniversários, que culminavam de modo geral com projeção de seus filmes. 


"Pathé desde a infância para nós não significava o que se passava no pão, mas o que se passava na tela/screen dos filmes do meu saudoso  pai. Por não caberem todos na sala, ele colocava a tela entre a sala e a sala de jantar (copa)... os adultos assistiam aos filmes na copa e a criançada barulhenta do outro lado da tela, na sala. 



No Museu da Emigração, em Bremerhaven, Alemanha, assisti novamente ao filme "O Emigrante", de Charles Chaplin, sendo a "mocinha" a bela Edna Purviance, parceira de muitos filmes do "Carlitos" cuja grande coleção meu pai tinha em casa, mas não todos os filmes produzidos por ele ou nos quais estrelou, naturalmente. "The Emigrant" era um dos meus preferidos na infância - sintomático de que eu viajaria muito e moraria no exterior...? - e esta cena era a própria de suspense para a gurizada. O filme, como os demais, era mudo, mas o barulho da "audiência", principalmente a sentada no chão da sala, era ensurdecedor diante das peripécias de Chaplin e de outros como o "Caralinda", "Harold Lloyd" etc. (meu pai produzia seus próprios filmes com cenas familiares e das viagens que fazia pelo Brasil).


Hoje somente alguns filmes de sua grande coleção estão comigo, mas a maioria com meu irmão mais novo, que os passou para video e distribuiu os originais entre os quatro irmãos. Algumas capas, levemente enferrujadas, estão lado a lado na estante de nossa atual sala com DVDs modernos de filmes antigos (aficcionado por cinema nos anos 50, hoje assisto somente a selecionados filmes modernos, e raramente). Nos porta-retratos, Carlitos com o cãozinho e eu com Victoria Chaplin, quando a encontrei e fomos fotografados juntos após um show circense que fez em Helsinki (ver link).

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Então este foi o meu primeiro "cinema", dentro de minha própria casa, nos tempos felizes da longínqua infância... na Avenida.

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Esta é a Avenida Bento Gonçalves, onde moramos em duas casas, que, pena, não aparecem na foto aérea, excelente e recente, de Rafa Marin Fotografia.


Em uma das muitas vezes em que voltei a Pelotas, tirei esta foto do Cine Theatro Avenida, que ficava a poucas quadras de nossa casa e pode ainda ser visto na parte inferior da foto da Avenida.  Era o cinema do bairro, muito frequentado, e lembro-me de seu enorme espaço totalmente lotado. Não me lembro exatamente do primeiro filme a que assisti, menino, no "Avenida", mas lembro-me do "luto" que nos era imposto quando um velho da família morresse (e como havia velhos na nossa família!): 20 dias sem ir ao cinema... Nas recordações, os shows de cantores da Radio Nacional do Rio de Janeiro... Ângela Maria, Cauby Peixoto, Jorge Goulart, Nora Ney, Emilinha Borba, Marlene e a dupla que víamos nas imperdíveis chanchadas da Atlântida, Eliana e Adelaide Chiozzo. Frio e chuva não nos impediam de esperar a saída deles após o show para vê-los de perto.


Hoje, os "antigos badulaques cinematográficos" enfeitam nossa estante da sala aqui no sul da Finlândia, como lembrança de que fui "introduzido aos estúdios", alguns que visitei em Hollywood,  pelo Cine Avenida, de saudosa lembrança.
Por que saudosa, o cinema fechou?
A reportagem do DIÁRIO POPULAR, que me foi enviada bem recentemente por uma conterrânea amiga no Facebook, conta o que acontece com o Cine Teatro Avenida. Parabéns à jornalista Daiane Santos pela fantástica reportagem que certamente tocou o coração de muitos frequentadores, inclusive o meu no norte do mundo, mas com recordações do sul do mundo tão vivas e gratas...
Ao DIÁRIO POPULAR, o meu agradecimento por transcrever a preciosa reportagem.

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Durante anos a casa de espetáculos intercalou apresentações teatrais com projeções cinematográficas (Foto: Carlos Queiroz - DP)
Durante anos a casa de espetáculos intercalou apresentações teatrais com projeções cinematográficas (Foto: Carlos Queiroz - DP)
Estrutura está abandonada, à mercê do tempo (Foto: Carlos Queiroz - DP)
Estrutura está abandonada, à mercê do tempo (Foto: Carlos Queiroz - DP)

As janelas bloqueadas por concreto do Theatro Avenida - localizado na avenida Bento Gonçalves, quase esquina com a Santa Tecla - escondem um passado repleto de vida e história. Apesar disso, a fachada deteriorada do antigo prédio é um sinal da tristeza que tomou conta do lugar, importante centro cultural de Pelotas durante quase todo o século 20.
Construído em estilo art déco na metade da década de 1920, o teatro foi inaugurado em 3 de julho de 1927 com exibição do filme Cavaleiro audaz, estrelado por Buck Johnes, famoso ator da época. De teatro foi transformado em cinema, depois danceteria e por fim em igreja, fechando suas portas em definitivo no início dos anos 2000. Desde então, a estrutura está abandonada, à mercê do tempo.
Um passado marcante
Durante anos a casa de espetáculos intercalou apresentações teatrais com projeções cinematográficas, incluindo sucessos do cinema mudo como a película O filho do sheik, último filme do ator hollywoodiano Rodolfo Valentino, morto em 1926. A Companhia Brasileira de Comédias Álvaro Fonseca também integrou a programação do Avenida com a peça cômica A dama dos cinemas.
Dez anos após a fundação, em 1937, o Theatro Avenida foi transformado definitivamente em cinema, com capacidade para 2.265 espectadores. Ainda assim, shows de mágica e hipnotismo eram comuns em meio às sessões. Lá pelo final da década de 1960, o antigo prédio foi comprado pelo grupo Arcoflex, dono da rede Arco Íris Cinemas, que até hoje é a proprietária do espaço histórico.
Futuro incerto
Sem perspectiva de reforma, atualmente o Theatro Avenida está disponível para locação, conforme um dos proprietários, o empresário Mario Luiz dos Santos. Segundo ele, somente assim a estrutura poderá ser recuperada, já que o grupo não tem interesse em revitalizá-lo. “Em todo o país, os cinemas de rua foram fechando e em Pelotas isso não foi diferente.” Desde 2004, o prédio está fechado e vazio. Móveis e estruturas internas acabaram estragando e foram para o lixo.
Recentemente, surgiram propostas para locação do espaço como casa de shows, no entanto, a possibilidade ainda não foi confirmada. “Temos outros prédios que eram cinemas na cidade e foram transformados em outro tipo de negócio. É a realidade do mercado”, considera Santos, referindo-se ao antigo cinema Capitólio, transformado em estacionamento.
Pelotas cinéfila
Na época em que o Theatro Avenida foi fundado - 1927 - Pelotas tinha aproximadamente 82 mil habitantes e estava entre as oito cidades brasileiras de maior renda municipal. Quando o Avenida foi transformado em cinema, a população pelotense já havia saltado para 120 mil pessoas, segundo boletim estatístico de 1939. Só naquele ano, o teatro exibiu 365 espetáculos, vistos por 127.870 pessoas, ficando atrás apenas do Theatro Guarany com 442 apresentações e público de 260.252.
O Avenida foi um dos primeiros cinemas pelotenses a serem adaptados para exibir filmes em tela larga. Conforme a mestre em Memória Social e Patrimônio Cultural Francine Tavares, mais do que ver filmes ou peças teatrais, naquele tempo as pessoas iam ao cinema ou ao teatro para interagir socialmente, verem e serem vistas. Nesse universo de efervescência cultural e social, teatro, cinema e corridas de cavalos eram as atividades preferidas da população.
Com o passar do tempo e o aumento da concorrência - na década de 1950 Pelotas tinha 12 salas de exibição -, o cine-teatro Avenida começou a perder público. Adquirido pela Arcoflex, o Avenida chegou a ser reformado em 1972, mas a iniciativa não trouxe o retorno esperado. Depois disso, o cinema passou a exibir filmes cuja temática se concentrava em lutas e artes marciais, até projetar suas últimas imagens no dia 30 de setembro de 1984.
O começo do fim do Avenida
Após encerrar as atividades como cinema, novos locatários - Jorge e Eduarda Oliveira - tentaram dar novo fôlego ao Theatro Avenida. No segundo volume da série Pelotas - Casarões contam sua história, a historiadora Zênia de León afirma que a ideia era voltar a usar o espaço como teatro, além de promover a cultura e o lazer na cidade.
Em 1985, um grupo teatral - a Companhia Tragicômica Theatro Avenida - chegou a ser formado, sem muito sucesso. Integrada por Joca D’Ávila, Liliane Duarte, Gê Fonseca, Giorgio Ronna, Carmem Vera e João Bachilli, a falta de incentivo e estrutura acabou atrapalhando a iniciativa. “Ensaiamos umas duas vezes no Avenida e por falta de apoio desistimos”, relembra o atual secretário de Cultura de Pelotas, Giorgio Ronna.
Para ele, o espaço, ao distanciar-se das artes cênicas, se tornou importante centro da cultura pop pelotense. “Vi bandas importantes subirem ao palco do Avenida. Legião Urbana, Blitz e Kid Abelha são apenas alguns exemplos.” A vocação como point musical da cidade se confirmou e o prédio acabou se tornando uma danceteria e casa de shows, por onde passaram bandas reconhecidas nacionalmente.
No dia 12 de junho de 1985, por exemplo, mais de quatro mil pessoas lotaram o Avenida durante o show da banda de rock Paralamas do Sucesso. Iniciavam também os tempos do Mamão com Açúcar, festa realizada nas tardes de domingo voltada a jovens e crianças. Apesar da nova vocação, algumas raras apresentações teatrais ainda ocorriam. É o caso da famosa peça Os saltimbancos, do cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda; e do balé folclórico da antiga União Soviética.
Na década de 1990, o local continuou sendo usado para festas e eventos, inclusive como sede de igreja. A primeira metade do século 21 viu nova tentativa de reerguer o espaço, com a realização de shows, porém, o projeto não deu certo e as portas do Theatro Avenida foram fechadas e suas janelas lacradas. Hoje, o prédio encontra-se abandonado e sem muitas perspectivas futuras, assim como vários outros prédios históricos da cidade.
Toca Raul
Em 16 de junho de 1989 o Avenida foi palco do que pode ter sido o último show de Raul Seixas em solo gaúcho. O cantor e compositor morreu no dia 21 de agosto daquele ano, após sofrer uma parada cardíaca em casa. Além deste ícone da música popular brasileira, passaram pelas luzes do Avenida as bandas Ultraje a Rigor, Roupa Nova, Garotos da Rua, Engenheiros do Hawaii; o pianista Artur Moreira Lima e a cantora Emilinha Borba.
E o Sete de Abril?
Até novembro, a empresa vencedora do processo de licitação da segunda etapa de restauração do Theatro Sete de Abril, a Sole Associados - empresa especializada em projetos de espaços culturais - deve finalizar os planos cênicos e de compatibilização arquitetônica do prédio. Orçada em R$ 191 mil, esta fase é a última antes do início das obras finais de restauro que preveem climatização, luminotecnia, recuperação do piso e da infraestrutura interna, dentre outras melhorias. Assim que o projeto for entregue, a licitação para execução das obras deve ser publicada.
Estas devem iniciar no primeiro trimestre de 2015 e receberão R$ 5 milhões do PAC Cidades Históricas. Inaugurado em 2 de dezembro de 1833, o Sete de Abril foi o primeiro teatro construído no Rio Grande do Sul e é um dos mais antigos no Brasil. Tombado como patrimônio histórico nacional, o prédio foi interditado em 15 de março de 2010 por ordem do Ministério Público Federal, após laudo técnico apontando comprometimento estrutural. Desde então, a população pelotense aguarda a reabertura da casa de espetáculos,
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L I N K S
- O que era ir ao cinema nas décadas de 50... e 20:

http://paulofranke.blogspot.fi/2006/09/pelos-caminhos-pitorescos-do-cinema.html


- Do estudio à porta de nossa casa, fotos de artistas de Hollywood:

http://paulofranke.blogspot.fi/2006/07/as-fotos-de-nossos-artistas-favoritos_16.html


- Quando encontrei Victória Chaplin e conversamos sobre seu famoso pai, do qual o meu pai era fã e morreu no mesmo ano, 1977:

http://paulofranke.blogspot.fi/2006/07/ele-era-importante.html


- Visitando Vevey, na Suíca, o último lar de Chaplin, e sua sepultura:

http://paulofranke.blogspot.fi/2008/07/de-trem-pela-europa-7-vevey-suca.html


- A entrega do Oscar 2014... artistas que morreram... incluindo a história dos primórdios do cinema:

http://paulofranke.blogspot.fi/2014/03/spotlight-no-cinema-antigo.html


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Em breve:

Turnê pelos locais da infância de Charles Chaplin, inclusive à casa onde nasceu, na visita que farei a Londres nos próximos dias
 (a ser mostrada neste blog em fotos no mês de outubro,
se Deus quiser).
Aguarde.

2 Comments:

  • Muito legal Paulo.
    A primeira vez que fui ao cinema, como não poeria deixar de ser, foi no Avenida. Eu tinha 5 anos e foi para assistir a uma animação do Mickey e Pateta.

    Abraço,
    Luiza

    By Blogger paulofranke, at quinta-feira, agosto 28, 2014 3:26:00 PM  

  • Ahhh que legal Paulo!! Conversando com a mãe, ela se lembra de quando o pessoal lá de casa (a vó, o vô, a vó Lili, Tia Iara) iam na tua casa ver os filmes!! Deveria ser uma farra..Muito legal!!

    Abraços, Larissa Lysakowski Venzke.

    By Anonymous Anônimo, at terça-feira, setembro 02, 2014 3:22:00 AM  

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