Paulo Franke

22 agosto, 2012

Finlândia ...JUDEUS na FINLÂNDIA... Judeus


Nosso primeiro conhecimento a respeito de judeus na Finlândia foi quando vivemos na ilha de Åland*, província finlandesa de língua sueca, de 1990 a 1993. Na foto, minha filha, que tem um nome judaico, meditando diante de uma sepultura de um soldado judeu-russo, na visita que fizemos ao cemitério judeu da ilha, no meio de uma floresta, em uma tarde de sábado. * localize a ilha em um mapa, de fato um arquipélago, entre a Finlândia e a Suécia. 

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Em um lindo e raro dia quente, deste verão de 2012, fiz o mesmo. Desta vez caminhei até o cemitério de Hämeenlinna, que não conhecia, e fui conduzido por uma jardineira a um canto do mesmo onde está situado o setor judaico.



"É ali!" exclamei ao ver a estrela de Davi no portão fechado com cadeado.



E fiquei fotografando o belo e rústico local.



Quando a jardineira chegou com a chave do cadeado, pedi que me fotografasse e conferi que é não só uma boa jardineira, pela beleza do lugar à volta, mas também uma boa fotógrafa, pois, satisfeito com a foto, a coloquei no meu perfil do Facebook.



Cabe uma pesquisa para saber de que ano são as sepulturas, uma vez que as inscrições estão em hebraico.


Mesmo que as velhas sepulturas dêem mostras de que não são visitadas, pela ausência de judeus na cidade atualmente, algumas pedras estão sobre as mesmas, significado que explico na postagem da minha visita ao cemitério luterano de Jerusalém, onde Oskar Schindler foi enterrado (ver postagem a respeito no Índice).

A área comercial conhecida como o Mercado Judeu em Helsinki, em 1900. Fotografia de Leo Lubinsky (YIVO)

OS JUDEUS NA FINLÂNDIA NA GUERRA E NA PAZ.

Durante longo período de sua história, a Finlândia fez parte tanto da Suécia quanto da Rússia. Sob o regime sueco, aos judeus foi permitido estabelecerem-se nas três maiores cidades do país, Helsinki, Turku e Tampere. A Suécia perdeu o controle da Finlândia como resultado da guerra com a Rússia em 1808-09, e o Grã-ducado da Finlândia foi estabelecido dentro do Império Russo.

 Alguns judeus chegaram ao Grã-ducado da Finlândia como recompensa por servi
ços prestados ao Czar. Na primeira metade do século 19, aos soldados judeus que serviram no exército imperial russo na Finlândia foi permitido permanecerem e estabelecerem-se na terra cumpridos vinte e cinco anos de serviço militar. Os judeus finlandeses são originalmente descendentes desses soldados.

Um decreto de 1869 definiu ocupa
ções nas quais os judeus poderiam envolver-se, primeiramente como negociantes de roupas de segunda-mão. Em 1889, um outro decreto russo proibiu os judeus de frequentarem bazares gerais ou de negociarem fora das cidades onde residiam.  Os filhos de judeus eram permitidos permanecerem na Finlândia tão somente se vivessem com seus pais e não fossem casados. Violar tais leis poderia ser motivo de expulsão.

Em 1917 a Finlândia tornou-se independente da Rússia e aos judeus foi concedido amplos direitos de cidadania. A população, por conseguinte, aumentou para dois mil, principalmente como resultado da imigração desde a Rússia Soviética durante o  turbulento período revolucionário.

Os judeus estudaram em universidades finlandesas, alguns exerceram outras profissões e outros foram trabalhar em indústrias ou nas florestas. Mas a maioria continuou no negócio de roupas.  Com raras exce
ções, os judeus não se envolveram em partidos ou movimentos  políticos finlandeses.

Então, em um período de seis anos, a Finlândia lutou duas guerras com a União Soviética. A primeira, a "Guerra de Inverno", quando em 1939 o território finlandês foi invadido pelo exército vermelho, e uma província ao leste do país - a Carélia - foi anexada à União Soviética. Os judeus finlandeses lutaram lado a lado com os finlandeses. 


O Terceiro Reich declarou guerra à União Soviética em 1941, e a Finlândia uniu-se a ele como co-beligerante - não como aliada - com a finalidade de reaver o território que lhe fora tirado. A despeito de grande pressão alemã, o governo finlandês recusou-se a tomar a
ção contra seus cidadãos judeus, que continuaram a usufruir de seus direitos civis durante o tempo de guerra. Trezentos judeus serviram nas forças armadas do país. Os judeus finlandeses construíram uma "sinagoga rural" (veja foto) na qual foram realizados serviços religiosos ao lado das unidades da SS! Mulheres judias serviram como voluntárias na unidade auxiliar civil de defesa, a mais destacada Lotta Svard.

 Os judeus não foram considerados lutando do mesmo lado dos nazistas, ainda que sua guerra fosse contra a União Soviética. Judeus nas for
ças armadas lutaram por sua terra finlandesa e não por Hitler.

 Depois da Conferência Wannsee, em janeiro de 1942, Heinrich Himmler tentou pressionar a lideran
ça política da Finlândia no sentido de participar da Solução Final. No verão de 1942, Himmler visitou a Finlândia e obrigou a sua participação no demoníaco plano. Conta-se que o Primeiro-Ministo Johann Wilhelm Rangel assim respondeu: "Não há Questão Judaica na Finlândia. Os judeus da Finlândia são pessoas decentes e leais cidadãos cujos filhos lutam no exército como outros finlandeses." 

Cerca de quinhentos refugiados judeus de países conquistados pelos nazistas vieram para a Finlândia a partir de 1939. Muitos ficaram temporariamente e prosseguiram viagem para outros países, mas algumas centenas permaneceram.


Quando a guerra com a União Soviética acabou, os refugiados judeus foram absorvidos em áreas rurais e trabalharam em constru
ção de estradas e de fortificações. 

A polícia finlandesa, no entanto, entregou entre oito e doze judeus às autoridades alemãs alegando que eram pessoas indesejáveis. Foram deportados para Auschwitz-Birkenau onde somente um sobreviveu. Houve protestos veementes na Finlândia, na mídia sueca, na Igreja Luterana Finlandesa e no Partido Social-Democrata e assim cessaram as deporta
ções de indivíduos judeus. No final de 1942, os finlandeses elaboraram o plano de enviar judeus estrangeiros para a Suécia, que em 1944 recebeu cerca de quinhentos refugiados.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Finlândia apreendeu cerca de setecentos prisioneiros de guerra soviéticos, entre eles setecentos judeus.  A comunidade judaico-finlandesa ajudou os judeus prisioneiros enviando-lhes alimento e roupas. 


Mais tarde durante a guerra, o embaixador da Alemanhã em Helsinki, Wipert von Blucher, concluiu em um relatório para Hitler que os finlandeses não exporiam seus cidadãos de origem judaica ao perigo sob nenhum pretexto. De acordo com o historiador Henrik Meinander, o relatório foi realisticamente aceito por Hitler.


Dois oficiais judeus do exército finlandês e uma mulher, Lotta Svärd, foram merecedores da condecora
ção alemã "Cruzes de Ferro", mas não as aceitaram. O Museu do Holocausto, Yad Vashem, em Jerusalém, registra que 22 judeus morreram em Shoah, todos lutando no exército finlandês.

No ano 2000, o Primeiro-Ministro finlandês, Pave Lipponen, compareceu à Sinagoga de Helsinki e pediu desculpas à comunidade - assim como também fez a lideran
ça da Igreja Luterana - pela omissão em dar assistência aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Em uma cerimônia na sinagora, o Primeiro-Ministro disse: "A entrega de refugiados judeus aos nazistas em 1942 é uma mancha na história da Finlândia. O erro não pode ser corrigido nem pode ser justificado sob nenhuma circunstância. ...Cada pessoa tem somente uma vida e cada vida é igualmente valiosa." 

Uma placa foi presenteada à comunidade e no porto da capital há um monumento aos judeus que se  tornaram vítimas do Holocausto (fotos abaixo).


A sinagoga de Helsinki é considerada ortodoxa Ashkenazi, mas está aberta a membros não-ortodoxos. Cerca de 100 pessoas frequentam o servi
ço religioso aos sábados.


Durante a guerra da independência em Israel, vinte e nove judeus finlandeses veteranos voluntariaram-se para lutar. As relações diplomáticas entre a Finlândia e Israel foram estabelecidas em 1948. Desde então, cerca de setecentos judeus emigraram para Israel.

 Há atualmente duas sinagogas no país, em Helsinki e em Turku. O número de judeus finlandeses atualmente é de 1.500, integrados na sociedade e representados em todos os setores profissionais, na indústria, na educação e no governo. Muitos falam o finlandês e o sueco como sua língua materna; iídiche, alemão, russo e hebraico são idiomas também falados na comunidade.

Cantor Zweig declarou: "Embora sejamos a comunidade menor e mais setentrional do mundo, temos uma comunidade muito ativa e com um coração aquecido!" 

Extraído do relato da visita ao país de Max Jacobson, um descendente direto do primeiro judeu documentado na Finlândia, um latoeiro que chegou em 1799.


CHICAGO JEWISH HISTORICAL SOCIETY


Image

Soldados judeus-finlandeses em frente à sua sinagoga rural no rio Svir. A "Guerra de Inverno", de 1939-40, deu aos judeus um sentimento de que enfim faziam parte do país. E durante a "Guerra de Continuação", ainda que a Finlândia estivesse lutando lado a lado com os alemães nazistas contra a União Soviética, os judeus-finlandeses lutaram como muitos outros finlandeses. Mais de 350 judeus-finlandeses  serviram no exército finlandês durante a Segunda Guerra Mundial, sendo que 23 deles morreram em combate. 

Foto: Axis History Forum



Outro passeio memorável deste verão 2012 foi visitar pela primeira vez o monumento aos 12 judeus deportados. 





Ben Zyskowicz20110226.jpgRuben Stiller.JPGMauritz Stiller 1927.jpg
Ben Zyskowicz • Ruben Stiller • Mauritz Stiller

Um político, um apresentador de televisão e o seu tio-avô, três judeus-finlandeses. Como coleciono "contatos importantes", quando vi a filhinha de Ben Zyskowicz depositar uma oferta enquanto eu vendia nosso jornal na loja de departamentos Stockmann, quando trabalhávamos em Helsinki, agradeci a ambos e conversei um pouco com o político judeu-finlandês, comentando inclusive de minha admiração pelo seu povo. Vi diversas vezes o judeu Ruben Stiller passar apressadamente na mesma loja. Mauritz Stiller, seu tio-avô, introduziu Greta Garbo no cinema americano (veja link).


Seela Seela é uma artista do cinema e do teatro finlandeses. Quando a vemos, elegantemente vestida, na foto adentrando a festa da independência, não imaginamos que esta artista judia já frequentou a escola dominical do Exército de Salvação com sua avó, que era salvacionista. É outra cujo amor e respeito pelo Exército são notórios. Ela muitas vezes não só depositava uma quantia no cofre, mas também conversava comigo enquanto eu estava no meu posto no Stockmann. Quando a vi recitar salmos, convidada em uma de nossas reuniões especiais em Helsinki, fiquei impressionado, pois eu nunca ouvira declamadora igual a ela, que o fazia de cor e com muita expressão longos textos bíblicos!



No livro da genealogia da família de minha esposa Anneli, um judeu-alemão caixeiro-viajante, seu bisavô Abraham Bachem, pai de sua avó paterna, uma serva consagrada de Deus que morreu ajoelhada orando diante das cartas de seus seis filhos que estavam no campo de batalha. E todos sobreviveram (veja link).



Na aula de trabalhos manuais, na escola da ilha de Åland, meus filhos fizeram uma bandeira de Israel, um avental e uma almofada que ainda está em nossa atual sala.


Surpreendi-me quando, chegando na Finlândia, ví símbolos judaicos em igrejas, inclusive bandeiras de Israel - a foto mostra uma de nossas janelas no Corpo local do Exército de Salvação. E impressionou-me o amor que o povo tem para com a Terra Santa, visitando-a com frequência e sempre orando pela paz de Jerusalém. Uma das razões de a Finlândia ser um país abençoado reside certamente no amor que tem por Israel:
"... abençoarei os que te abençoarem" (Gênesis 12:3)



Felizmente tinha minha câmera comigo ao dirigir para Helsinki recentemente... De repente, as nuvens formaram a figura de parte de um candelabro judaico no céu finlandês.


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L i n k s:

Entre fotos de outros templos, a da bela Sinagoga de Helsinki:

http://paulofranke.blogspot.fi/2008/09/concluindo-helsinki-tambm-linda-4.html

Meu amigo judeu, que faleceu recentemente, sobrevivente de Auschwitz:



Um judeu finlandês introduziu Greta Garbo no cinema americano:


Minha esposa Anneli e sua história, inclusive de sua avó paterna, filha de um judeu-alemão:


Como localizar fácil temas do Holocausto neste blog:


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3 Comments:

  • Meu prezado amigo, " história é a emoção de um povo"...Que bom conhecer pessoas que gostam e lutam, por manter uma história viva. É a força, amor, perseverança, e fé de um povo. E O povo Judeu tem muito o que contar e nos, ainda muito por conhecer.
    Ainda hoje, fico a pensar o porque?
    Porque fazer diferença entre seres humanos, pq afinal é isso o que somos. Apenas Seres Humanos!!!! Iguais em tudo e voltaremos todos para o Pai do mesmo jeito. Não entendo as diferenças!
    Amigo, parabéns por manter viva a chama do conhecimento. Como é bom, desafiador, manter a curiosidade sobre a vida de pessoas e sua lutas e descobertas.
    Quanto a Israel, dia chegará em que todos nos olharemos como seres que somos. Humanos e irmãos! Assim desejo e rezo ao Pai, sempre!
    Grande abraço e obrigada por mais um pouco de vida e, realmente super jardineira em todos os sentidos, grande foto!!!
    Muita paz sempre!!!

    By Blogger Maria Thereza, at segunda-feira, agosto 20, 2012 12:41:00 AM  

  • Como de praxe, Paulo, um belo texto com muito belas fotos. Grato por compartilhar conosco.
    aBRaços.\Vitor

    By Blogger Vitor Rolf Laubé, at segunda-feira, agosto 20, 2012 12:53:00 AM  

  • Não costumo fazer comentários nas suas postagens sobre o povo judeo. Esse tema me sensibiliza e acho que conheço muito pouco, porém o suficiente para saber o quanto respeito e amo os escolhidos por Deus para serem Seu povo amado!
    A cada postagem sua aprendo mais, obrigada amigo!

    By Blogger Yara, at terça-feira, agosto 21, 2012 5:40:00 PM  

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